A Tarde - Revista Muito
06/04/08
Tatiana Mendonça
“O corretor de imóveis Abílio Mota atua na área há dez anos e esta vendendo oito casarões no bairro. Quatro deles custam mais de R$ 1 milhão. “Era para estar custando até mais, de R$ 2 milhões até. Um quarto e sala em Barcelona custa 200 mil euros e não tem o charme do nosso Centro. Aqui tem grande potencial para se tornar a área mais valorizada da cidade”, diz.
Hora da confissão.
Nunca tinha pisado nas ruas de pedra do Santo Antônio Além do Carmo antes de ouvir de Nadja Vladi, editora da Muito, que o bairro seria a capa da primeira edição da revista. “Tem um monte de artista, a sócia do Iguatemi comprou várias casas lá. E é super charmoso. Vamos mostrar que o Santo Antônio é trendy”. “Trendy” é tendência, leitor )
Por quase duas semanas andei por ali, desde a pracinha do Largo de Santo Antônio, que tem a igreja com o Santo morando pro lado de fora, até a Igreja do Passo, lá embaixo, perto de onde mora a estilista Márcia Ganem. Ela me disse que morar ali era como voltar à infância, por ter crescido em cidade pequena. Também foi um pouco do que senti. Quando perguntava aos moradores do que eles mais gostavam no bairro, geralmente se referiam à tranqüilidade e ao clima família. Mas também era desse clima que partia a insatisfação de alguns: a fofoca, que acaba se tornando inevitável.
Outro tema onipresente nas conversas era a especulação imobiliária no Santo Antônio. Era o vizinho que estava vendendo a casa por R$ 700 mil, as ofertas milionárias pelo Bar Cruz do Pascoal, o burburinho pelas casas compradas por Luciana Rique, do Iguatemi, e seu sócio, Dorival Regine. A “Além do Carmo empreendimentos” adquiriu 17 imóveis na área.
E todo mundo tinha uma teoria do que é que o “empreendimento”, o “grupo”, ia fazer no bairro. Os empresários preferem deixar os rumores correrem. Dizem que as casas abrigarão algo relacionado à cultura. Insisti, mas não consegui tirar nada além disso.
A professora de urbanismo da Uneb Maria Palácios mora no Santo Antônio há 17 anos. Foi parar ali porque queria ter certeza de que nenhum espigão ia surgir em frente à sua casa. Na época, os amigos ficaram preocupados com a sua “sanidade mental” e perguntaram com quem sua filha iria brincar. “Já esperava essa valorização do centro histórico. Esse processo aconteceu em todas as grandes cidades ocidentais. Quando morava em Liverpool, em 1970, foi a mesma coisa. Dava pra comprar os armazéns lá perto das docas por um preço que seria algo em torno de R$ 10 mil. Hoje são lofts milionários. A cidade é viva, como a gente. Tem o crescimento, tem a morte. A diferença é que a cidade ressuscita”.
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