Análise “Salvador: a nova Barcelona?”

O primeiro debate da série Debates de Quinta aconteceu na sala 04 da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia no dia 17 de abril de 2008 com o tema “Salvador: a nova Barcelona?”. O mote para o debate veio da afirmação de governantes da capital baiana de que em 10 ou 20 anos viveríamos numa efervescência econômica, social e cultural semelhante à capital catalã que, após a realização das Olimpíadas em 1992, movimentou investimentos nos mais diversos setores.

Para participar do debate, a equipe composta por Aline Trettin, Clara Marques, Fernando Duarte, Maiza Nunes e Sylvio Quadros buscou inúmeros convidados que pudessem refletir visões contrapostas de Salvador, tornando o debate o mais produtivo possível. Apesar do esforço da equipe e devido a problemas com agendas dos convidados, foram confirmadas apenas as presenças dos senhores:

- Edgard Porto: Diretor de estudos do SEI;

- Raimundo Torres: representando a Agência de Fomento do Estado da Bahia – Desenbahia;

- Walter Barreto Jr: empresário do setor imobiliário e vice-presidente da Ademi-BA.

Indagados sobre a confirmação da comparação entre Salvador e Barcelona, todos os convidados foram equânimes: em um curto espaço de tempo é impossível equiparar a capital baiana e a capital catalã. O principal motivo apresentado pelos três foi a ausência de investimento no setor da educação, primordial para o desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada. “… sem investimentos em educação não existe inclusão social, ou seja, não dá para se ganhar muito sem produzir inteligência, porque trabalho manual hoje não remunera, e, a cada dia, vai passar a remunerar menos”, afirmou Barreto Jr. Essa explicação, apesar de simplista apareceu nos mais diversos questionamentos formulados pela equipe.

A comparação, considerada pelos convidados, até certo ponto, fantasiosa ao extremo, serve, porém, como um possível espelho de como alcançar um estágio de evolução social que possa refletir nas melhorias contínuas para a população. O planejamento, tão presente na organizada Barcelona, foi apontado como uma grande falta para Salvador. O crescimento desordenado na capital baiana irá refletir no fato de não haverem diretrizes básicas. Edgard Porto resumiu esse problema com a seguinte afirmação: “Salvador é reflexo da sua região, é reflexo da economia baiana, tem que conversar, tem que compreender esse negócio. Ficou mais complexa e a gente ficou desqualificado”.

Internacionalizar, que pode ser observado com o aporte de investimentos estrangeiros em todo o Estado, pode ser uma alternativa, porém, de maneira planejada, não cedendo a possibilidade de especulação financeira. Edgard Porto indicou que nessa fase de planejamento para aporte de capital “nós estamos numa fase atrasada ainda”. A Bahia, assim como o Brasil, está aparecendo no cenário mundial como um produtor de commoditties o que, em curto prazo, não significa alterações na configuração da sociedade. O aumento do PIB baiano em 2005 não irá refletir numa continuidade. “Acredito que se acontecerem investimentos em logística capazes de atraírem fluxos para a Bahia, eu acho que aí o quadro pode mudar um pouco” afirmou Porto.

Polemizando um pouco o debate, Walter Barreto Jr. aproveitou o local, onde serão formados futuros integrantes da imprensa, para explicar a diferença entre especulação e investimento imobiliário. Contrapondo o questionamento do mediador sobre a possível especulação imobiliária na região do Salvador Shopping e da Paralela, na capital baiana, Barreto Jr. indicou que ali se trata de investimento imobiliário e não especulação. Segundo ele, os investimentos imobiliários beneficiam diretamente a população com a geração de empregos diretos como também através das divisas com impostos nas escalas federal, estadual e municipal. “… aqueles lojistas todos que estão ali dentro [Salvador Shopping], pagam por mês 6 milhões de impostos”.

Outro problema apontado foi a ausência de planos de gestão de longo prazo. “A cidade não pára em uma gestão, em duas gestões, em três gestões” declarou Torres. Um exemplo clássico apontado é o metrô de Salvador, fundamental para a consolidação de um transporte público de qualidade e até o momento não resultando em uma melhoria significativa. “Sem transporte público eficiente não existe solução pra uma cidade com 2 milhões e 800 mil habitantes”, indicou Barreto Jr. Nenhum dos três apontou soluções específicas para a série de problemas levantadas no próprio debate e que não limitam todos as dificuldades de Salvador, porém Raimundo Torres aplicou uma fórmula possível: “onde nós vamos direcionar o crescimento e onde nós vamos favorecer ou controlar, para que não haja um descasamento tão grande entre o crescimento e a infra-estrutura”.

Entre os pontos fortes dos debates, destacamos, sem dúvida, a presença dos três convidados que apontaram visões dissonantes e, ao mesmo tempo, semelhantes de como encarar Salvador, tão mal comparada a capital catalã em um curto espaço de tempo. Ainda assim, destacamos que o sonho de termos uma Barcelona nos trópicos não é impossível. A fórmula inteligência e educação, apontada por Raimundo Torres, Edgard Porto e Walter Barreto Jr. é uma solução imediatista com reflexos em longo prazo, que resultarão numa aceitável comparação entre Salvador e Barcelona.

A equipe responsável pelo debate “Salvador: a nova Barcelona?” agradece a colaboração dos convidados e dos colegas de sala que construíram de maneira sadia um importante debate para a análise da atualidade soteropolitana.

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