Aberto à participação dos interessados, no dia 06 de maio, às 11h, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, aconteceu mais um dos “Debates de Quinta”. Desta vez, o assunto em questão foi o TRÁFICO DE DROGAS. A discussão teve como proposta abordar “As faces do tráfico”, a partir de sua correlação com a mídia, o poder público e a sociedade.
O debate contou com a presença de: Erival Guimarães, assessor da Secretaria de Segurança Pública e ex-editor de segurança do jornal Correio da Bahia; Luiz Lasserre, formado há 20 anos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é editor de Segurança do jornal A Tarde, desde o final de 2006; Paulo Roberto Portela, atual coordenador do Serviço de Investigação da 7ª Circunscrição Policial; Marcelo Magalhães Andrade, graduado em Psicologia pela UFBA, possui experiência na área de Teoria Psicanalítica, atualmente é coordenador do Coletivo Balance de Redução de Danos.
Resolvemos destacar alguns pontos do discurso de cada um dos convidados a partir dos seus respectivos lugares de fala, relacionando com o objetivo da nossa discussão.
Erival Guimarães
Para embasar seu relato sobre a situação do tráfico de drogas na Bahia, e, mais especificadamente, em Salvador, Erival Guimarães, assessor do Secretário de Segurança Pública, trabalhou com dados estatísticos. De acordo com Erival, representante do poder público, o fomento de crimes hoje é causado pelas disputas de gangues, e a maior preocupação da SSP quanto ao tráfico no estado refere-se a essas violências.
O papel do assessor na mesa era o de tratar do tráfico na Bahia, sem deixar espaços para criticas ao Secretario de Segurança Pública. Sendo assim, Erival ressaltou o investimento feito na Inteligência da Polícia visando o combate ao tráfico, assumindo assim o lugar de fala do governo.
O ex-editor do Correio da Bahia chamou atenção para as mudanças na estrutura do trafico em Salvador. Segundo ele, após a morte do traficante Pitty, até então comandante no tráfico nas principais áreas de distribuição da capital, houve uma descentralização na distribuição. A morte do líder provocou a ramificação do negócio, fazendo com o que, numa mesma localidade, haja mais de quatro pontos de drogas, fato atípico anteriormente.
A maior deficiência no combate do tráfico refere-se à invisibilidade do fornecedor. Quando as drogas entram no estado e são distribuídas, torna-se mais difícil combatê-las. Quanto à criminalização do uso e vendas de drogas, Erival afirmou que a justiça é censurável nesse aspecto; não há leis que façam distinção de julgamento em relação à quantidade de drogas apreendidas.
Marcelo Magalhães
Marcelo Magalhães Andrade, graduado em Psicologia, possui experiência na área de Teoria Psicanalítica, atualmente é coordenador do Coletivo Balance de Redução de Danos. Utilizou em seu discurso dados e referências que abarcavam a antropologia, ciências sociais e a psicanálise.
Partindo do lugar de fala de um acadêmico que desenvolve pesquisas e trabalhos no âmbito da relação entre os usuários de substâncias psicoativas, Marcelo sustenta sua fala em conceitos embasados na sociologia, procurando não tratar de aspectos isolados e sim correlacionar uma série de fatores que desencadeariam o quadro que hoje se apresenta em rela cão as drogas. Segundo Marcelo é necessário desenvolver projetos que tenham como principal objetivo reduzir os danos gerados pelo uso das drogas, já que ele demonstra ver como algo impossível um mundo onde não exista consumo de substâncias psicoativas sem distinguir licitas e ilícitas.
Marcelo ocupou-se em seu discurso de defender a perspectiva de que não é possível tratar de tema tão complexo utilizando modelos que viriam simplificar a questão do uso de drogas e suas possíveis conseqüências a depender dos contextos. Ridicularizando por vezes os papéis dos órgãos responsáveis pela manutenção da segurança e também os veículos de comunicação que segundo ele seriam responsáveis por uma série de falhas no entendimento deste assunto.
Portela
“A polícia tem obrigação de combater. Na detenção, já não tem mais onde colocar preso devido às inúmeras prisões relacionadas com drogas” (Portela - Sobre o tráfico de drogas)
A partir da fala de Paulo Roberto Portela - atual coordenador do serviço de investigação SI (Serviço de Investigação) da 7ª CP – percebe-se o quanto a polícia encontra-se mal equipada e com pessoas despreparadas para lidar com o tráfico de drogas. E como a palavra “drogas” traz consigo outras questões, como o fato citado pelo mesmo que é a superlotação nas cadeias de Salvador e Região Metropolitana. Muitos casos que acabam em mortes e não se chega há nenhuma resolução.
Uma grande interrogação sobre o tráfico de drogas é como a lei diferencia o usuário do traficante. O investigador afirmou que quando se faz uma averiguação sobre um ponto de tráfico de drogas, o policial não pode esquecer de levar para a delegacia o dinheiro comprovando a venda do produto. A partir dos seus próprios critérios, ele define se uma pessoa que é pega com um cigarro de maconha é ou não considerado traficante, sendo assim, fica a dúvida de como a lei e seus executores no dia-a-dia, ou seja, os policias fazem essa diferenciação. Se para o investigador da 7ª tem que haver dinheiro com a pessoa para que esta seja caracterizada como traficante para o investigador da 4ª CP em São Caetano isto pode proceder de outra forma? Conclui-se assim, que ainda têm se muitos aspectos que devem ser discutidos antes de uma possível legalização da maconha e/ou outras drogas, já que a própria lei não consegue chegar a um consenso sobre o papel dos principais personagens desta questão (o dependente químico e o traficante).
“Para mim o traficante é aquele que produz a droga, mas um profissional para fazer um flagrante perfeito na hora da prisão deve fazer uma checagem. O dinheiro é importante porque fica caracterizado que o cidadão estava traficando. Não existe um traficante sem dinheiro.”
Veja a seguir, comentários do Coordenador sobre o papel social do tráfico, outro assunto abordado em As faces do tráfico.
Luiz Lasserre
Quanto à apuração jornalística, o editor de A Tarde, Luiz Lasserre destacou as limitações do Jornalismo em meio à falta de informações. Critica a “falta de causa” e de motivação de cerca de 80% das mortes em Salvador, bem como a seguinte conclusão: “Há informações que a vítima tinha envolvimento com drogas. [...] A violência existe e as mortes existem, todas as noites chegam em minha mesa 5, 10 ou 15 mortes, e muitas vezes a explicação é muito pequena e pouco para as respostas que o jornalismo tem que ter. [...] Nós não podemos nos contentar com as informações que nossas fontes estão nos dando, as informações sobre as mortes são insuficientes. E já publicamos uma matéria sobre isso, no qual a Polícia Civil afirma que 90% das mortes não se têm autor e nem motivação. E nós temos que confiar nos investigadores como Portela que está na ‘ponta’, mas se você for ao cartório de uma delegacia como a 7ª os inquéritos não andam”.
Lasserre afirmou que a polícia continua sendo a principal fonte da imprensa, pois nem sempre é fácil o acesso a notícia e aos fatos.
Ressalta que enquanto “jornalista”, procura fazer um jornalismo que equilibre o “varejo” (notícia diária), pois tem que fechar o jornal, produto de uma empresa de comunicação, que precisa vender. Mas enquanto “profissional” tem que haver um equilíbrio, pois não podemos publicar qualquer coisa a qualquer preço.
Afirmou que há problemas no Estado e na sociedade e defasagem na polícia, na defensoria, no ministério público, na justiça. Além disso, “há problemas de mobilização social, de acompanhamento, nos remédios institucionais e na aplicação das leis. O que quero dizer? Todo sistema é problemático e acreditamos que o papel do Jornalismo e da impressa seria tentar responder às questões do mercado, fazer um Jornalismo vibrante e que venda e que interesse ao leitor, mas ao mesmo tempo um Jornalismo conseqüente, se utilizando de ferramentas como séries especiais[...]”.
Veja mais sobre apuração, Luiz Lasserre e Tráfico de drogas:
No Comments
Nenhum comentário ainda.



