Análise Crítica

ANÁLISE CRÍTICA

 

Transposição do Rio São Francisco: Qual a melhor solução?

 

No último dia 29, ocorreu na sala 4 da FaCom - Ufba o debate “Transposição do Rio São Francisco: Qual a melhor solução?”, quarto da série Debates de Quinta. A previsão do governo é de que após a conclusão, em 2025, a obra irá interferir na vida de 12 milhões de pessoas, incluindo habitantes de pequenas, médias e grandes cidades de toda a região semi-árida dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Para tanto, o Ministério da Integração Nacional, prevê a construção de dois canais revestidos de concreto, um no eixo leste com 220 quilômetros e outro no eixo norte com cerca de 400 quilômetros, mais duas pequenas centrais hidrelétricas. Serão instaladas algumas estações de bombeamento, e, além disso, túneis e reservatórios também levarão água para a região.

 

No entanto, as opiniões sobre o projeto são distintas. Grupos da sociedade civil o consideram dispendioso, acreditam que as medidas são megalomaníacas e servirão tão somente para o desvio de verbas públicas. Já o Governo Federal garante que as pequenas obras sugeridas como solução para o problema não resolvem a questão por completo.

 

Baseado na polêmica que durante muito tempo foi destaque na mídia e dentro da sociedade, o debate se propôs a discutir qual a melhor solução para o Rio São Francisco. Para dar embasamento técnico à discussão foram convidados o arquiteto José Augusto Saraiva Peixoto, atuante em planejamento urbano conservacionista e o geólogo Luiz Rogério Bastos Leal, pós-doutorando pela Universidade do Texas e diretor do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia.

 

No debate, o tema mais importante e polêmico foram os argumentos de defesa do governo pelo projeto. A questão é: existe fundamentação consistente em suas afirmações? De acordo com Saraiva, a obra foi formatada pelo governo FHC, e ainda nessa época o PT era contra, no entanto, depois que o partido tomou posse colocou-se a favor do projeto. “Ele interessa aos grandes empreiteiros”, ponderou o arquiteto. Verifica-se no discurso do arquiteto um desapego às questões econômicas, ele apenas se preocupa com as adaptações do homem e do ambiente em relação ao projeto. É possível comprovar na afirmação: “É preciso primeiro cuidar do ser humano, ou seja, das populações ribeirinhas, o rio possui grande dificuldade vital, os seus afluentes já não possuem matas ciliares, o que contribui diretamente para o assoreamento”.

 

Leal apontou o paradoxo do deputado federal Geddel Vieira Lima. Este posicionava-se contra a Transposição antes de tornar-se ministro da Integração. Aquele acredita que “as comunidades pobres se opõem ao projeto em virtude do assistencialismo do governo”, ou seja, o professor constata que as populações ribeirinhas preferem não se opor ao governo para não perderem certos benefícios como o Bolsa Família, por exemplo.

 

 

Após esse tema inicial, os convidados ponderaram em  relação ao que diz respeito aos verdadeiros beneficiados com a obra e o que haveria de positivo nela.  Saraiva afirma que a Transposição não vai levar água para ninguém: “Não necessariamente água”, o que significa que as águas desviadas após a transposição não serão utilizadas para “acabar com a seca”, diferente do que se afirma ao tentar promover o projeto. “O Rio não irá chegar ao povo desta maneira, talvez chegue em forma de produtos produzidos através da água dele, como frutas, hortaliças e etc. No entanto, a água, propriamente dita, não. Obras como esta são eleitoreiras”. Como fundador de um partido político, o Partido Verde, Saraiva consegue visualizar com uma maior clareza, as influências dos interesses políticos no projeto, principalmente no que condiz à repercussão popular provocada pela transposição e os possíveis problemas que serão gerados por conta do conflito de interesses partidários em torno da obra. Ele conclui ao acrescentar sua opinião afirmando que uma forma de evitar incoerências do tipo, seria entregar determinados cargos da política a técnicos devidamente habilitados: “Se a obra for viável, haverá continuidade dela, independente de os governos seguintes serem deste ou daquele partido”.

 

Já o geólogo Leal incorpora uma postura totalmente técnica e aparentemente parcial, ações típicas do ethos científico. Ele afirma que a revitalização está acontecendo em alguns locais, embora tardiamente. Além disso não se diz contrário a Transposição, mas acredita que deve haver uma revitalização. Também defende a exploração total da natureza desde que isso seja feito de maneira racional.

 

Outra temática inserida no debate foi a experiência soviética com o Mar de Aral. Sucessivas drenagens feitas pelo governo nas repúblicas da Ásia Central, a partir de 1920, fizeram que o fluxo dos rios no mar diminuisse consideravelmente. Este é considerado um dos maiores desastres ambientais e humanos da história, o Mar de Aral tem seu desaparecimento previsto para 2025. Aos convidados foi indagado se era possível fazer uma analogia ao exemplo, mais precisamente se havia possibilidade de estabelecer, pela mesma razões do exemplo anterior, igual  perspectiva de fracasso para o Projeto de Revitalização do São Francisco

Em seu comentário inicial, o professor Saraiva procurou assumir uma posição isenta ao colocar que intervenções desse caráter podem ser bem sucedidas ou não. De fato, mesmo para a Ciência é perigoso prever com exatidão as reações da natureza. A segunda declaração relevante para a análise do discurso diz respeito à explanação: “Caso a vida humana acabe, o planeta vai dar graças a Deus”. Nesta afirmativa do professor é possível constatar o seu engajamento pelas questões relativas à natureza e como ele julga o antropocentrismo prejudicial para a vida na Terra. Naturalmente um geólogo, doutor e pesquisador da área será defensor das causas naturais.

 

Já para o arquiteto Luiz a mesma questão é avaliada sobre outro ponto de vista. Segundo ele, há sempre uma dificuldade dos próprios cientistas em distinguir o que é intervenção humana e o que é processo natural. Ele considera ainda que  a ciência por vezes tem uma visão apocalíptica e cita como exemplo a mudança na atmosfera terrestre que provocou a extinção dos dinossauros e foi um processo inteiramente natural. Luiz acredita que os dois casos não podem ser comparados, militante das causas ambientalistas ele revela ser complicado comparação justamente porque nem sempre o homem é responsável por pela deterioração do meio natural.

 

 

O último tema abordado durante o debate foi a existência de um meio onde pudesse existir a confluência de interesses entre dois cenários distintos que se apresentam na Transposição do Rio São Francisco. O primeiro é o cenário do imediatismo, caracterizado pela ânsia de fazer chegar água, a todo custo, nas torneiras da população, pensamento muito comum na classe política, e o segundo é o cenário da ponderação, caracterizado por preocupações constantes, principalmente na classe técnica, com relação às limitações das fontes hídricas na condução do processo de transposição.

 

Segundo Saraiva essa obra vai servir para siderúrgicas. A refinaria Landulfo Alves já está incrustada na foz de um rio e é uma indústria extremamente poluente. “As comunidades que vivem no entorno sofrem há 50 anos com a poluição e nada é resolvido”, explana o ambientalista. Por ser atuante em planejamento urbano, Saraiva citou o exemplo da refinaria Landulfo Alves como forma de exemplificar o quão prejudicial pode ser a intervenção de interesses externos em uma obra como a que pretende ser implementada no São Francisco. Sua experiência como arquiteto lhe dá embasamento para poder afirmar que esta edificação foi um erro muito grave justamente por estar fincada na foz de um rio. Para ele, tal construção foi algo extremamente prejudicial para as comunidades locais. Já o seu ponto de vista enquanto ambientalista fica evidente em trechos como “quando se transpõe a água, se transpõe a vida também”. Para Saraiva, o país é República a mercê dos interesses internacionais. Dessa forma é impossível haver confluência de perspectivas, pois cada indivíduo visa as suas próprias.  “O interesse é a mola que move o mundo, podera Saraiva, Em pouco tempo se incia o período eleitoral, e o interesse na transposição do Rio São Francisco é tão somente de campanha. “Calendários políticos são baseados em eleição”, conclui.

 

De acordo com Leal, a transposição não vai atingir só a parte da população que necessita da água para subexistir, no entanto, para o Governo não é conveniente expor esse outro viés político pungente. Há “os interesses dos grupos internacionais” que encabeçam fortemente o projeto, mas isso não será veiculado. De acordo com o professor “o Ceará quer se desenvolver”, mas a Bahia lidera o ranking de produção no Nordeste por ter grande quantidade de água em suas terras, e os demais estados querem alcançar tal nível de produção e estimular a competitividade na região. Concluiu ao explicar que em verdade   um pacto federativo de interesses em torno de um bem comum, que seria justamente o desenvolvimento destes estados.

 

Por se tratar de um geólogo, Leal em quase todos os seus momentos de fala, deixou transparecer o lado técnico para embasar a sua opinião. No caso das afirmações acima, podemos perceber que ele fez questão de, durante o debate, demarcar a Bahia como o grande pólo de produção agrícola do Nordeste, destacando-a como estado mais rico em recursos da região. A experiência na área de Geociências, com ênfase em Hidrogeologia, e atuação em águas subterrâneas, hidrogeologia e monitoramento ambiental, lhe permitiram afirmar que o Ceará, e os demais estados que compõem o chamado “Eixo Norte” a ser beneficiado pela transposição, são os mais interessados na obra, pois visam o próprio  desenvolvimento,e, para isso, querem incentivar a instalação de indústrias em suas cidades. Para tanto, é preciso mais água, e, portanto, que seja efetivada a transposição.

 

Ao fim do debate nenhum dos dois convidados revelou-se  radicalmente contra a transposição. “Não sou contrário a transposição, mas deve haver revitalização”, afirma o geólogo. Por pertencerem a lugares de fala distintos, a argumentação e os discursos dos convidados eram, obviamente distintos. Cada um deles fundamentou a fala de acordo com aquilo que tinham conhecimento. Os convidados reconheceram a existência de interesses políticos por trás das obras, mas souberam pontuar os aspectos que iriam beneficiar a população. Os dois convidados concordaram que se trata de um projeto viável, porém com suas ressalvas. Apresentaram-se não totalmente contrários ao projeto, mas sim, em relação a maneira que será realizado. Comungam da mesma opinião de que se trata de uma obra muito dispendiosa, e de que não se trata da única solução para seca do Nordeste como, segundo eles, o governo tenta afirmar. Acreditam ser uma obra que visa e beneficiará quase que exclusivamente as grandes corporações, uma realidade distante dos 12 milhões de habitantes da região do semi-árido.

 Dessa maneira, a conclusão a que se chegou é que, para que a população seja beneficiada, antes é preciso atender aos anseios políticos, e não o inverso, como seria natural e ético.

 

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